A percepção de bem-estar é um fator marcado por forte subjetividade. Imagine duas pessoas com condições idênticas: mesma renda, escolaridade, tipo de domicílio, características do bairro, religião etc. Ainda assim, não é raro que apresentem percepções distintas sobre seu bem-estar. As expectativas e os julgamentos sobre a própria qualidade de vida são regidos por uma rede de complexidades que não se encaixa em uniformidades rígidas. Embora existam padrões de avaliação derivados de construções sociais — moldados por diversas redes de interação —, a liberdade de julgamento individual permanece presente. Isso, contudo, não exclui a existência de padrões explicativos do fenômeno chamado “percepção de bem-estar”.
Ao avaliarmos a percepção de bem-estar dos brasileiros por meio da Pesquisa Nacional do Instituto Informa, lidamos com milhões de indivíduos e um número limitado de fatores que os caracterizam. Pesquisas de opinião devem, entre seus múltiplos objetivos, buscar a segmentação dos respondentes. É nessa segmentação que reside a busca por padrões de pensamento e comportamento. É possível identificar agrupamentos de indivíduos que se assemelham em suas avaliações sobre o bem-estar.
Neste texto, trazemos uma leitura dos dados sobre a influência da renda familiar na explicação do fenômeno. A pergunta que guia esta análise é: a renda familiar é suficiente para explicar o bem-estar? Ter dinheiro garante satisfação com a vida?
Comparações e recortes: o que dizem os dados?
Para responder à questão, partimos de duas categorias definidas pela renda familiar (soma dos rendimentos de todas as pessoas do domicílio). Utilizamos como linha de corte cinco salários mínimos: pessoas com renda até esse valor e pessoas com renda superior.
Os dados indicam que, quanto maior a renda, maior tende a ser a satisfação com o bem-estar:
- 42,7% das pessoas com renda acima de cinco salários mínimos declaram-se satisfeitas,
- contra apenas 19,6% entre os que têm renda inferior.
A diferença confirma hipóteses conhecidas, mas reforça uma constatação importante: renda maior não garante satisfação plena, assim como renda menor não implica, necessariamente, insatisfação total. A indiferença, aliás, permanece alta nos dois grupos:
- 63,5% entre os de menor renda
- e 48,6% entre os de maior renda.
O ditado popular “dinheiro não traz felicidade” poderia ser aplicado ao bem-estar! Mas vamos avaliar com mais detalhes essa conclusão.
Dinheiro: o quanto é suficiente?
Vamos aprofundar a análise com um exemplo: imagine duas famílias com renda mensal de três salários mínimos — uma com cinco membros, outra com apenas dois. Embora a renda seja a mesma, as condições objetivas são diferentes. O mesmo vale para dois lares com renda de quinze salários mínimos: um com gestão financeira modesta, outro com gastos excessivos. Isso nos leva à pergunta central: a renda disponível é suficiente para os custos necessários ou assumidos?
A pesquisa investigou esse aspecto:
- 63,7% dos que têm renda menor afirmaram que não têm recursos suficientes para cobrir as despesas,
- contra 29,5% dos que têm renda maior.
Apesar de a insuficiência de recursos ser mais prevalente entre os mais pobres, não é exclusividade deles. Parte significativa dos mais pobres consegue manter seus custos em dia, enquanto muitos dos mais ricos não conseguem.
Quando a conta fecha, o bem-estar aparece
A insatisfação com o bem-estar é semelhante entre aqueles que não conseguem cobrir suas despesas, independentemente da faixa de renda:
- Entre os que têm renda menor e não conseguem cobrir as despesas, a insatisfação chega a 24,6% (resíduo: 7,6 – análise dos resíduos: mostra o poder de explicação de uma informação a partir do resultado 1,9).
- Entre os que têm renda maior e também não conseguem, a insatisfação é de 21,5% (resíduo: 4,4).
Por outro lado, quando há cobertura das despesas, a satisfação cresce expressivamente:
- 68,9% de satisfação entre os que possuem menor renda mas que conseguem pagar as contas (resíduo: 8,6);
- 79,4% entre os que possuem maior renda com despesas cobertas (resíduo: 7,4).
Ou seja, independentemente da renda familiar, o bem-estar pode ser explicado pelas condições que as pessoas têm de arcar com suas despesas, de garantir as condições de subsistência e dos aspectos garantidores do viver bem (na perspectiva de cada um).
Avaliar o bem-estar apenas pelo fator “renda familiar” indica reducionismo. As condições de subsistência e as garantias de acesso aos fatores que cada pessoa considera essências para o bem viver explicam mais o fenômeno.
O bem-estar, em sua composição subjetiva, pode habitar um casebre em um bairro afastado — e estar ausente em uma cobertura à beira-mar.